12 outubro 2005

um pouco do meu veneno (1)

Da primeira vez não sabia bem o que me tinha acontecido, ou melhor, sabia bem o que me tinha acontecido. Não era normal estar sentado em frente da televisão, as noticias do costume, e começar a chorar. Chorava. Aceitei a tristeza como uma leve constipação e pensei: "passa". Nunca sequer considerei a hipótese de me medicar para algo tão banal, tão vulgar. Mas estava adoentado. Chegava a casa, depois de uma saída com os amigos, já com uns copos, e ensaiava um mail, algo que pudesse fazer chegar até ti o que me revolvia por dentro. Chorava. Começava a chorar na primeira frase e não chegava a terminar o primeiro parágrafo. Nenhuma dessas mensagens alguma vez te chegou as mãos. Depois, tal como uma leve constipação, passou. Integrei-te em mim, noutra forma, mas em pleno. Consumi-te. Somos amigos. Passaste a fazer parte de mim, do meu outro, mas a vida não acabou em ti.

O tempo continua a mudar a cada estação do ano e todos os anos me constipo.